O debate sobre a transição energética global e a segurança no suprimento de matérias-primas industriais colocou os elementos de terras raras no centro das discussões econômicas internacionais. No entanto, quando se pesquisa o que são terras raras no Brasil, muitas dúvidas surgem quanto à natureza desses minerais, às suas aplicações tecnológicas e à forma como o setor mineral organiza as informações regulatórias relativas a essas substâncias.
Diferente do que o termo leigo sugere, as terras raras não são rochas incomuns nem compostos de extrema escassez na crosta terrestre. Trata-se de um conjunto de dezessete elementos químicos com propriedades magnéticas, ópticas e catalíticas singulares, essenciais para a fabricação de motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos avançados e sistemas de telecomunicações. Compreender sua dinâmica em território nacional exige separar o entusiasmo mercadológico dos registros oficiais e das realidades geológicas.
Resumo executivo
- As terras raras compreendem os 15 lantanídeos mais o escândio e o ítrio, classificados internacionalmente como minerais críticos para a indústria moderna.
- Apesar da abundância crustal relativa, esses elementos raramente ocorrem em concentrações economicamente viáveis fáceis de processar, demandando etapas sofisticadas de extração e separação.
- O Brasil possui províncias geológicas conhecidas por hospedar complexos alcalino-carbonatíticos, argilas iônicas e depósitos de minerais pesados contendo esses elementos.
- O universo regulatório brasileiro reúne 278.106 processos minerais registrados junto à ANM/SIGMINE, entre os quais estão inseridos títulos associados a diversas substâncias e minerais da transição energética.
- Transformar a visualização de requerimentos de pesquisa e alvarás em entendimento prático depende do cruzamento de dados geoquímicos, regulatórios e logísticos.
Definição técnica: quais elementos formam as terras raras?
Do ponto de vista químico e mineralógico, as terras raras são formadas pelo grupo dos lantanídeos — que abrange lantânio (La), cério (Ce), praseodímio (Pr), neodímio (Nd), promécio (Pm), samário (Sm), európio (Eu), gadolínio (Gd), térbio (Tb), disprósio (Dy), hólmio (Ho), érbio (Er), túlio (Tm), itérbio (Yb) e lutécio (Lu) —, somados ao escândio (Sc) e ao ítrio (Y), que compartilham características físico-químicas e ocorrem com frequência nos mesmos depósitos minerais.
Na indústria, esses elementos costumam ser divididos em dois grandes subgrupos, conforme o peso atômico:
- Terras raras leves (LREE): incluem elementos como lantânio, cério, praseodímio e neodímio. São os mais volumosos na maioria dos depósitos minerais mundiais e sustentam a fabricação de ímãs permanentes de alta eficiência.
- Terras raras pesadas (HREE): compreendem elementos como disprósio, térbio e ítrio, historicamente mais escassos e de alto valor agregado, cruciais para manter a estabilidade magnética em temperaturas elevadas e para aplicações ópticas avançadas.
A terminologia histórica remonta aos séculos XVIII e XIX, quando esses elementos foram identificados inicialmente em óxidos terrosos de difícil redução, recebendo o nome de "terras" em uma época em que sua ocorrência parecia restrita a raras localidades mineralógicas na Europa.







